sábado, 6 de setembro de 2008

Leda e o Cisne


Leda e o Cisne. Óleo sobre tela de Leonardo da Vinci (1452-1519). Datado de 1503/1504 (cópia — o original não existe mais). Roma, Galleria Borghese.
O mito de Leda e o Cisne

Segundo a versão clássica desta narrativa mitológica grega, Zeus, desejando Leda, usou um disfarce para se aproximar dela sem provocar repúdio. Leda - nome muito comum na Grécia antiga - era casada com Tíndaro, Rei da Lacedemónia, e recusara as pretensões do deus dos deuses.
Caprichoso e dominador, Zeus submetia mulheres pela força ou pelo artifício. Neste caso, tomou a forma de um cisne, deslizando pelo Rio Eurotas onde Leda se banhava. Para afastar suspeitas e despertar a compaixão de Leda, apresentou-se perseguido por uma águia.
Da união fortuita de Leda com Zeus, somada à união com Tíndaro, que aquela não prejudicou, resultou algo também de excepcional - dois ovos, cada um deles com um par de gémeos: Polux e Climnestra, Helena e Castor.
Figura mágica, o cisne, animal gracioso e de porte majestático, dotado de elegância, equilíbrio e força, surge em diversas construções míticas como animal misterioso, transformista e símbolo de fertilidade. Na literatura medieval (sécs XII-XIII), o cavaleiro de Deus, Lohengrin, filho de Parsifal, é um cisne, ou melhor, um jovem que corre mundo esperando a oportunidade de saír do seu encantamento .
Na mitologia grega, o cisne foi também associado a Apolo, deus da luz, das artes e também da adivinhação. Certamente, foi por este seu dom que o cisne - animal que pressente a sua própria morte, cantando-a pela última vez - se tornou atributo daquele deus.
O mito de Leda e o Cisne ilustra uma das funções centrais de toda a mitologia, designadamemte a grega: ilustrar a possibilidade de relação entre o mundo dos deuses e o mundo dos humanos.
Neste caso, a relação originou novos seres, saídos dos ovos que Leda pôs (segundo algumas versões apenas um) e onde se encontraram, lado a lado, deuses e humanos.
Castor e Climnestra, filhos de Tíndaro, constituiram, um em cada ovo, o par de deuses mortais, enquanto Polux e Helena eram filhos de Zeus e, portanto, imortais. Os dois rapazes distinguiram-se como guerreiros, participando na expedição dos Argonautas. Confrontado com a morte de Castor, Polux pediu a Zeus que lhe concedesse a imortalidade, mas Zeus permitiu apenas que a partilhassem entre ambos, vivendo e morrendo à vez. Os Dióscuros, assim chamados por serem filhos de Zeus, presidiam aos Jogos Olímpicos e eram invocados pelos gregos como protectores dos navegadores e dos atletas. Gozaram por isso de ampla popularidade no mundo helenístico, a tal ponto que Gémeos foi o nome escolhido para designar uma constelação.
Destinos trágicos tiveram as duas irmãs. Climnestra casou com Agamémnon, rei de Argos, cujo assassinato planeou para oferecer o trono a um seu amante. Helena, a mais bela mulher da Hélade, esteve na origem de perturbações e conflitos políticos, designadamente a Guerra de Tróia. Casada com Menelau, rei da Lacedemónia e irmão de Agamémnon, fora raptada por Paris, príncipe troiano.
Esta versão do mito coexistiu todavia com outras mais ou menos distintas, sinal de um complexo processo de gestação. As variantes cobrem aspectos relacionados tanto com a genealogia de Tíndaro e Leda, como com a natureza e atributos da sua descendência. De facto, a construção do mito, atestada desde as primeiras obras escritas e sobretudo a partir do século V a.C, prolongou-se por muitos séculos. A versão que triunfou sobre as concorrentes acentua uma espécie de razão natural (por exemplo, o ovo, símbolo primordial das mitologias, tem uma origem explicável em função da forma que o progenitor assume) e dá uma prevalência ao lugar de Leda (segundo alguns, sinónimo de mulher, esposa), à sua irresistível beleza e à sua espantosa fertilidade.

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